Matilde

As manhãs de fevereiro são sempre iguais. O cheiro nos lençóis, o sol invadindo o sobradinho que fora conquistado com o suor de Matilde. Ah, Matilde. Que mulher! Seios fartos, cabelos encaracolados, olhos de mel. Que infame alucinação! Acabo sempre na sarjeta, embriagado sob a luz da lua, esperando as breves manhãs de um fevereiro curto para que eu possa ver Matilde na janela, robusta, curvilínea, tão mulher. Foi pela Matilde que larguei o emprego, gastei minhas economias num terno novo, ingressos para o cinema, chocolates e um sorriso novo que o dentista me vendeu. Só não sobrou dinheiro pras flores, mas o que não falta no jardim do vizinho são flores pra eu dar pra Matilde. O vizinho é uma boa pessoa, sabe? Planta as sementinhas, espera crescer, cuida, rega, e eu colho pra Matilde. Ele é uma boa pessoa até descobrir que sou eu o tal ladrão florido que ele tanto me pergunta se sei quem é. A Matilde passa por mim na rua e finge que não vê. Sempre com aquele vestido vermelho colado no corpo. Ah, Matilde... Que corpo! Já fiz de tudo: tomei banho todos os dias na semana, troquei de colônia e até penteei os cabelos. Não faltei a um encontro sequer com o barbeiro. Mas Matilde continuava a me esnobar... Comecei a roubar jornais para vender na calçada da Matilde, mas ela nunca comprou. Acho que ela não sabia ler. Um dia até ofereci para ler pra ela, mas a cara de desprezo que ela fez me doeu até as... Unhas do pé. Mesmo me esnobando a maldita era linda. Até que um dia apareceu a Ge. Gertrudes. Não era como a Matilde, mas era mulher. E passei todo faceiro com a Ge pela janela da Matilde, que veio atrás de mim. Ah, danada!

Me perfumei, me barbeei, quase fui morto pelo vizinho, larguei o emprego, comprei outro sorriso só pra te sorrir bonito. Fiz da calçada da tua rua o meu colchão só pra te ver acordar, Matilde! Mas eu precisei aparecer fedido, peludo e o pior, precisei beijar na boca desdentada da Gertrudes pra você chorar nos meus pés. Mas não tem problema não, Matilde. Eu volto pra você!

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