Que aconteça em nós

Foi assim: a porta se abriu e eu vi você. E ver você ali do outro lado foi tão indiferente quanto se ninguém jamais tivesse apertado a campainha. Na verdade, a situação toda não era nada mais que a representação exata de como estava meu coração: fechado, indiferente, inconsciente, e abrir a porta dele não quer dizer que vá mudar alguma coisa.

Sua imagem de garoto perdido clamando por atenção não mudou nada na minha vida, vontades, desejos e sentimentos. O que mudou foi o nível de álcool no meu sangue, mas acredito que não tenha sido ele o responsável por tanta química.

Pra ser sincera, estou farta de sofrimentos e medos alheios, cansada de ter que segurar um edifício inteiro com meu esforço. Em alguma esquina escura da história seremos de novo e eu vou voltar pra casa com uma sensação de dever cumprido.

Naquela noite você suscitou em mim o que estava morto, desacreditado. Uma esperança apagada de um recomeço que você me assegurou não existir. Mas é que minhas mãos estão tão calejadas e meus ombros tão exaustos que eu me entreguei. Cansei de ir contra a maré, maré essa que corre ao nosso favor.

Não há o que temer? Quanta hipocrisia, há muito o que temer. Ambos sofreram. Ambos vivemos e é por isso que o sofrimento nos alcançou. Sei que nos encontramos no momento certo da história errada. O sol brilhou na hora de dormir, garoto... Eu bem vi.

Contrariar cansa, cansa e deteriora os átomos do meu corpo que tem passado os dias com imensa loucura e vontade de se chocarem com os átomos do teu corpo.

Teu corpo...

Percebi teus olhos desviando dos meus e vi que você sofre do mesmo mal que eu: o mal do medo, da casca, da precaução. O mal de querer ser mau após o sofrimento, a exposição, o fim... Só que aquilo que você vive hoje eu já vivi faz tempo, e já vou avisando pro bem de nós dois: sofrer cansa, mas impreterivelmente nos faz querer amar de novo. A gente não pode deixar de amar, garoto. Não pode se deixar levar por todas essas pessoas que não nos amaram de volta. É por isso que nos encontramos nessa esquina escura. Apagaram as luzes da rua e até as estrela se ausentaram para que fosse mais difícil te enxergar. Mas na sala daquele apartamento, naquela noite chuvosa, eu te percebi. Reconheci os meus e os teus medos no teu toque, no teu jeito acanhado de procurar meus lábios, de me fazer lembrar que somos o resto daquilo que um dia fora inteiro... Mas tenho fé, sabe garoto? Talvez sejamos nós as luzes da rua, as estrelas desaparecidas. Talvez sejamos nós o brilho de nós dois e nem saibamos. O ocultismo do amanhã me faz querer um hoje vivido tão intensamente que meu coração se (re)partiu na única noite que tivemos juntos, naquela sala, atrás daquela porta que algumas horas antes abriu caminho para que você entrasse na minha consciência. Não é amor, mas pode ser. É medo, angústia e sofrimento, mas pode não ser mais. Tira essa armadura, garoto, que eu tiro a minha. Faço-me violável se você fizer o mesmo. Talvez sejam as armaduras que ofuscam as luzes que somos, luzes que só vão brilhar quando não formos mais alheios, e sim um só. A rua é bonita, menino. Eu já vi. Já fui luz, você também. Cansei do breu, do vazio, do impertinente. Quero te cuidar, te mimar, quero até te amar. Mas tem que ser recíproco, garoto. Senão seremos mais escuros que todas as esquinas da cidade, e eu preciso que você aconteça em mim, preciso acontecer em você. Vamos fazer essa cidade brilhar.

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