Melhor não discutir

Eu admiro a tua leveza, que ri na cara do meu desespero. E a tua calma, quando a situação é realmente desesperadora. Eu amo a tua paciência que me esclarece todos os dias as mesmas dúvidas cansadas e de ar medroso. Porque você sabe, eu só faço perguntas retóricas. Crio diálogos, discursos, e formulo todas as tuas respostas de uma maneira que eu não vá me magoar. Até hoje deu certo. Não que você seja previsível (como eu), mas é que eu acho que a gente tá no mesmo barco de verdade. Você quer as coisas que eu quero. E as coisas que eu quero que você queira. Eu quero que você tenha paciência e me responda com leveza a todas as minhas perguntas-armadilhas a ponto de rir da minha cara. Mas não rir a ponto de me sentir negligenciada. Porque eu sei que eu não sou equilibrada como você, mas eu tenho parte na razão. Um pouco porque eu acredito que, se você não está aqui pra dividir a cama comigo num sábado à noite, é preciso ter calma para me explicar pela milésima vez os mesmos motivos de sempre. Porque eu me esqueço deles. De tudo, Dos motivos, e das coisas que eu e você queremos.

Quer dizer, eu me lembro muito bem de todas essas coisas que eu quero, só me esqueço que você quer também. Ou acho que você pode mudar de ideia de um sábado pra outro. Você sabe, finais de semana são especialmente complicados pra mim. Não sei socializar. Sou uma falsa comunicadora social. Uma farsa. Quanto mais comunicativa eu pareço, mais eu desejo fazer voto de silêncio no Tibete. Então, resta fazer voto de silêncio de sexta a domingo. Tentar, pelo menos. Eu não sei se você já percebeu, mas quando eu digo que sinto a tua falta, não é nada grande demais. Você nem precisaria falar nada. Nem é de sexo que eu tô falando. É só você, quietinho, existindo ao meu lado. Você sendo você. Me olhando perambular pelo quarto, prestando atenção na TV, me ouvindo falar com a melhor expressão de "tô tentando entender sem te achar uma maluca". Você já sabe que eu sou assim. Maluca. Daquele tipo raro, que fica maluca por medo de enlouquecer. Me desculpa por te fazer embarcar nessa TPM de 30 dias no mês. Mas olha, outubro vai até dia 31, então quem sabe você ganha um dia de folga.

Ultimamente tem sido mais difícil admirar tua leveza. O medo de perder você me faz confundir com descaso. E sempre que eu falo dos meus medos, eu preciso que você desarme um a um, porque se um deles for ignorado sou capaz de pensar que esse medo é capaz de se concretizar. Na verdade é horrível confessar todas essas coisas sabendo que você deve estar rindo por dentro agora. Eu sei, sou o ser mais complexo que já existiu. Eu não era assim antes de você chegar. Você sabe que despertou em mim quase tudo como se fosse a primeira vez. E, se eu explodo de euforia, é normal que a loucura venha junto. Quem sabe se você aparecer agora na minha porta eu vejo que sim, tudo é possível, e que eu não preciso ter medo, só paciência.

É difícil ter paciência quando o que você quer está materializado ao seu lado, distribuindo imponência ao longo de quase dois metros de altura, explanando certezas com a voz mais intimidadora e sexy do mundo. Quase dois metros que se dobram em pedacinhos ao meu lado na cama. A voz que não mais intimida, mas sussurra. Então não importa se eu surtar sábado que vem de novo. E se o mês só tiver trinta dias. Acontece. Só continua querendo as mesmas coisas que eu, e me lembra uma por uma, senão eu acho que você me deixou sozinha nesse barco flutuando no meio do rio Tietê. Não é difícil. A leveza e a paciência você já tem. Só precisa rir da minha cara aqui do meu lado, todos os dias, dormindo e acordando comigo. Porque você intimida, mas o ser complexo sou eu. E eu quero você. Acho melhor não discutir.

Antes que as luzes se acendam

Não adianta só dizer que ama. Tem que dar boa noite também. Você que me acostumou assim, agora aguenta. E não vale dar boa noite se não disser 'até amanhã', porque assim durmo tendo certeza de que amanhã ainda seremos nós. E, quando você acordar, eu preciso ser a primeira coisa que te atinge a mente. Mas não adianta se você não vier falar comigo logo em seguida. E tem que dar bom dia, dizer eu te amo, até daqui a pouco, pra eu me arrumar tranquila, sabendo que você não vai mudar de ideia no meio do caminho, e que daqui a pouquinho seremos nós mais uma vez.

Você que me acostumou assim, agora aguenta. E não adianta só aguentar. Tem que gostar de aguentar. Tem que sentir saudade. Sentir meu cheiro no teu suéter. Fingir que tá cozinhando pra mim. E tem que fazer cara de bobo quando me encontra te esperando pra gente sair. Não sou autoritária. Juro. Eu só preciso saber que você me quer um pouco, porque eu te quero tanto que seria injusto se você não pensasse em mim de vez em quando.

Se você não mudar de ideia no meio do caminho, chega e me chama. E não adianta só chamar. Tem que dizer que tava com saudade, e que a saudade era tanta que fingiu que tava cozinhando pra mim. Mas não basta falar isso tudo, tem que sussurrar, porque ninguém pode ouvir.  Então aproveita que ninguém tá olhando e me beija. Pega esses minutos de completo breu e me rouba. Antes que tenhamos, mais uma vez, que fingir que não nos conhecemos bem. Casa comigo antes que eu tenha que descer pela escada enquanto você vai de elevador. Me faz um filho antes que notem que eu te amo. Gruda em mim antes que percebam que eu te preciso. Me olha e me nota antes que sigam teu olhar.

Antes que eu me esqueça, diz mais uma vez que me ama. Antes que as luzes se acendam e a gente tenha que fingir que nossos corpos nunca se tocaram. Não me deixa esquecer de que o nosso pouco é maior que muito. Que nossas horas a sós valem mais que uma vida. Me jura que um dia as luzes não vão ser problema. Que qualquer dia desses eu vou poder pegar na tua mão sob o holofote do mundo. E que você me quer, não um pouco, não de vez em quando, mas sempre. Assim como eu.

Eu quero que você possa ficar

Eu olho pra você e desejo que você possa ficar. Eu não ligo se você ficar de meia. Nem se você dormir. Muito menos se reclamar das músicas que às vezes eu ouço. Não me importa se você brigar comigo por andar descalça ou por não ter comido direito. Não me preocupa a falta de bateria no celular ou se não avisei em casa sobre meu paradeiro. Eu não vou ficar triste se você  lembrar do teu passado, nem se falar das partes do teu presente em que ainda estou ausente.

Enquanto você tenta me dar bronca, eu só respondo que já vou por um sapato e fico pensando em como você é lindo. Enquanto fala, cuidadoso, com medo de me magoar, eu só olho pra você e desejo que você fique. Que se enrosque em mim, com ou sem meia. Que durma com as pernas entre as minhas. Eu ponho pra tocar só as músicas que você gosta. Me alimento bem e ponho um sapato. Carrego a bateria do celular e dou sinal de vida pro mundo. Ouço sobre o teu passado. E sobre tudo no teu presente que ainda não me inclui.

Sei que é complicado, por isso não complicamos. Nosso mundo paralelo funciona melhor que o real. Não existe trânsito caótico ou horário pra chegar a qualquer lugar. Não existe dar satisfações a terceiros ou chuva fora de hora. Nosso mundo funciona melhor porque, na verdade, todas essas coisas existem, mas aprendemos a ignorar uma por uma. Deixa que procurem. Que comentem. Que chova.

Sei que volta e meia o som das buzinas te lembra que, apesar de o nosso mundo funcionar melhor, ele não é real. Sei também que é difícil gostar de alguém tão teimoso como eu. Mas fica. Me insere no teu futuro. Não desembaraça tuas pernas das minhas. Só não te tira de mim. Conversa comigo o tempo inteiro até quando não pudermos falar. Me toca até quando eu não estiver. Só não me tira de ti.

O que minha cama diz sobre mim

Havia chegado onde eu queria: minha cama. Era ali que me escondia desde que nasci. E, sem cobertas, nada feito. A vida toma outro significado quando você admite que é covarde e é isso que eu era naquela madrugada de sexta-feita e em todas as madrugadas dos últimos vinte anos. Covarde.

Eu me deitava e parecia que quanto mais meu corpo descansava, mais minha mente trabalhava. Precisava de um emprego, pagar as contas, recolher os cacos de vidro do chão do meu quarto; ser um bom filho, um irmão presente, um cidadão de bem. É por isso que, sem as cobertas, nada feito. Porque mergulhava nelas e mentalizava que eu não era ninguém até que minha cabeça doesse ou que eu pegasse no sono. Era mais fácil acreditar, por uns instantes, que eu não existia, do que aceitar, durante uma vida inteira, que eu não tinha coragem.

Sabia dizer do que não tinha coragem. Dar a cara a tapa. Mudar os móveis de lugar, adquirir vícios, mudar hábitos. Pirar, quem sabe. Ser um completo filho da puta ou um perfeito idiota, talvez. Recolher os cacos de vidro do chão. Eu só não sabia dizer do que tinha medo. Nem porque a cama havia virado minha linha de chegada. Eu deitava e acordava com o gosto de mediocridade na boca, que depois se misturava com o enxaguante bucal, depois com café, mas nunca, nunca saía. Eu tinha pensado em começar a fumar só pra ter algo a me dedicar. Me dedicaria todos os dias à tarefa de parar com o fumo e, quem sabe assim, dormiria menos.

Eu não sabia lidar com a ideia de ter abandonado quem eu era. Eu tinha medo de me abaixar pra recolher os cacos de vidro do chão e não me levantar mais. Aqueles cacos, distribuídos aleatoriamente pelo chão, eram pra mim como meus sonhos. Partidos, quebrados, espalhados no chão frio. Sabia que se fosse recolhê-los não teria forças pra levantar porque eu não tinha coragem de ver meus sonhos indo pro saco.

Todo santo dia que eu deixava de mudar os móveis de lugar, eu deitava pra me lamentar pelos móveis que ainda estavam nas mesmas posições. E o gosto da mediocridade virava cheiro, e ganhava mãos, e me tocava, me lembrando que eu não prestava nem pra ser um completo filho da puta. Porque eu deixo tudo pela metade. E ser um meio filho da puta seria demais pra mim.

Eu e você em três atos

I.
Você apareceu pra mim naquele bar como qualquer um. Aquela noite de quarta-feira era a minha primeira tentativa de ser feliz depois de anos numa fossa sem fim. Minha primeira tentativa de jogar sinuca, num bar caindo aos pedaços, cheio de gente hardcore fumando e assoprando fumaça na minha cara. E lá estava você, não tão alto nem tão magro como eu gostava, não tão simpático, não tão galinha. Enfim, você apareceu pra mim como alguém que eu dispensaria em cinco segundos. Se tivesse olhado pra mim. Sim, além de mediano, corpo escultural e cara amarrada, você me ignorou por completo. E eu te achei um babaca.

II.
Até hoje não sei o que fez a gente conversar. Eu descobri que você não era babaca e, depois de vários dias conversando, eu te chamei de anjo. Porque era o que você parecia naquele momento. Alguém que veio me mostrar que o amor é lindo e por aí vai. Fizemos tudo como manda o figurino. Conhecemos família, saímos em casal, dormimos muito, paramos de sair em casal, ficamos em casa olhando um pra cara do outro e pronto. Eu não só não era mais a mais bonita, como não era a mais magra. E não só gastava demais, como fazia tudo errado. E você preferia brigar e ter razão a ficar em paz e assistir a um filme comigo.

III.
Você apareceu pra mim como qualquer um, virou tudo que eu queria e, depois, tudo que eu não conseguia mais suportar. Num primeiro momento, você era tão carinhoso que eu não percebi que era orgulhoso demais pra lutar por mim, e que eu lutei sozinha por todos esses anos. E eu era tão apaixonada que não percebia que não tínhamos nada a ver. O que você não esperava é que, se eu não era a mais bonita, a mais magra e a mais bem sucedida, eu não ia tentar ser só pra te agradar. Eu finalmente entendi que eu não precisava de um anjo. Porque eu não precisava ser salva. E você, que queria tudo, ficou sem nada. E resumiu nós dois em três atos.

Você pede pra eu não te esquecer

Você pede pra eu não te esquecer. Como se fosse fácil. Como se esquecer fosse apertar um botão e deletar tudo que você fez comigo. Pra mim. Em mim. Como se fosse a dor de bater o mindinho no sofá da sala, que dói e logo passa. A dor que você causa é pior, porque você não tem intenção de machucar. Porque está longe querendo estar aqui. Porque eu não te esqueceria nem que tentasse. E, principalmente, porque eu não tento, apesar de tudo.

Até porque, apesar da tua ausência no domingo à tarde, você fez comigo o que ninguém fez. Percebeu o que nem eu sabia que tinha. Valorizou o que eu nunca dei bola. E sabe que, apesar da tua ausência na segunda-feira de manhã, você compensa vindo me lembrar sempre que pode que eu sou o teu destino, e por isso não posso sair do meu lugar. Porque você vai chegar, hora ou outra, e eu preciso estar aqui pra te receber. Eu quase não ligo se você não está aqui sexta-feira à noite, porque eu fico em casa como se você estivesse me fazendo companhia. E vejo algum filme que você gosta, porque é como se fosse comentar o roteiro quando acabar. 

Não tento te esquecer porque sei que é em vão. Porque você tá mais aqui do que as pessoas que estão comigo todos os dias. Porque você lateja na minha cabeça como uma enxaqueca, e queima no meu coração como um gole de café quente que eu acabei de tomar. Mas também é por isso que eu sinto tua falta nas tardes de domingo, nas manhãs de segunda e em todos os outros dias do mês. A tua existência é tão concreta em mim que a tua ausência me dói. Porque eu te sinto tão aqui que olhar pro lado e perceber que você não tá é como um soco no estômago. É ir dormir com fome e não conseguir pegar no sono. 

Então desculpa, não vai dar. Não ache que você pode chegar e fazer a maior bagunça por aqui, virar parte de mim, e ainda ter a petulância de pedir pra eu não te esquecer, como se fosse fácil. Porque não é. E mesmo que fosse, eu não esqueceria. Por tudo que você fez em mim, e porque você vai chegar, hora ou outra, e eu preciso estar aqui pra te receber.


Enquanto você dormia

Sabe que esses dias você pegou no sono e eu nunca me declarei tanto pra você. Deitado de lado, me inseri entre teus braços e fiquei a meio palmo de distância do teu rosto. Conseguia sentir tua respiração e isso me fez ver que é verdade, você existe e estava ali comigo. Passei o dedo indicador na tua testa até a ponta do nariz e queria que você conseguisse sentir o tamanho da minha vontade de te cuidar. Ver você naquele sono pesado, puro cansaço, e fazer você sentir que pode largar tudo e esquecer do mundo. Por uma hora ou uma vida.

Você disse que não sabe o que fez pra me merecer e eu te disse, você lembra, que você carregou o mundo nas costas por muito tempo e agora eu tô aqui pra ajudar. Não a carregar o peso, mas fazer teu mundo mais leve. Tua vida mais linda. Teu sono mais puro. A pergunta não é por que você me merece, mas como poderia não merecer.

É porque se eu escrevo, você lê. Eu chego, você nota. Eu emagreço, você briga. Dou a louca, você me apoia. Eu te quero, você me toma. Eu choro, você liga. Fico nervosa, você me abraça. E justifica as ausências, perdoa as bobagens, compreende meus surtos. Eu é que não sei o que fiz pra te merecer. Mas não questiono, porque a vida não costuma me dar essas colheres de chá. Eu só aceito e agradeço.

Teu maior defeito é também tua maior qualidade: você é tudo que eu sempre quis. É tua maior qualidade quando eu posso ter você me olhando com a maior cara de bobo que já inventaram. Quando posso ver você dormir. Teu defeito é ser tudo isso e ter que ir embora. É ficar horas sem falar. Dias sem chegar. É nunca me tirar do sério, embora eu quase consiga ficar com raiva. Mas não consigo, porque você volta e justifica as ausências, me toma, me abraça, dorme ao meu lado. Quando me dou conta, já estou entre teus braços, a meio palmo de distância do teu rosto, querendo carregar o mundo com você. 

Eu não esperava nada de você

Eu não esperava nada de você.
Quando te conheci você era aquela figura distante que eu olhava com olhos de admiração. E só.
Quando se tornou não tão distante, só esperava que me ensinasse um pouco do que sabe sobre a vida. Mais nada. Você me ensinou um pouco do que sabe e fez mais: me emprestou teus olhos pra eu enxergar o mundo. O mundo pelos teus olhos é diferente. Ele tem todos os filmes que nunca assisti e todas as músicas que há anos eu não ouvia. Nesse mundo as pessoas não mudam, o que é triste quando a gente tem esperança de que alguém mude por nós. Mas esse é o ponto: não estamos aqui pra mudar ninguém, e sim pra encontrar alguém do nosso jeito. Alguém que nos aceite e nos ame.

Eu não esperava nada de você, mas amava a forma como você via o mundo. A forma como você me via.
Agora você era o oposto de distante. Estava em todos os meus dias, em todos os lugares. Eu te contei da minha infância, dos meus traumas e das minhas manias. Sem querer, eu me abri pra você. Sem poder, você se abriu pra mim. E eu entendi porque você enxerga o mundo dessa forma. Você me mostrou que, por experiência própria, tentar mudar alguém é lutar para perder. Perder e se magoar. E, sem usar uma só palavra, você me disse que precisava de amor. Eu entendi o recado eu nunca mais devolvi teus olhos.

Eu não esperava nada de você, mas agora entra. Rega minhas flores, deita na minha cama, não repara a bagunça. Ignora a roupa que eu sempre deixo jogada no chão. Regula a temperatura do chuveiro, você sabe, eu nunca consigo. Pergunta se estou com frio. Briga pela minha falta de agasalho. Desce as escadas na minha frente pra eu não cair. Encontra meus olhos no meio da praça. Me beija no meio do povo. Deixa o cinto a postos no criado-mudo. Pega um guardanapo a mais porque sempre me esqueço e sempre me sujo. Me leva pra tua vida, me mistura no teu trabalho, me toma na sala. As janelas abertas. A porta trancada. As vozes no corredor. A hora do almoço. A vontade de não ir almoçar. Ri do resto de esmalte nas minhas unhas. Entende minhas indiretas, as diretas e as certeiras. Curte as músicas que compartilho - sabe que é pra você. Queira conhecer minha família. Fica com vergonha da minha mãe. Ajeita a cama. Me olha tomar banho. Me olha sair do banho. Manda eu me secar. Ri do meu cabelo despenteado. Me aninha no teu peito. Olha meus olhos te olhando. Ri da minha risada. Me conta uma piada sem graça. Depois admito que foi boa. Sorri pra mim enquanto sussurro que quero ficar no teu corpo feito tatuagem. Me observa pelo espelho e tenta, nunca conseguindo, me convencer de que sou linda. Te convenço, sempre, de que sou tua. Inteira. Desde as roupas jogadas no chão até a gripe que pego por não me secar depois do banho. Enche minha vida com todos os teus olhares, saudade, teus filmes, minhas músicas. Dorme comigo, descansa, você encontrou alguém do teu jeito. Eu te aceito e te amo.



Quem te deseja quer te ouvir

Não existe amor que resista à falta de interesse.
Se você chega em casa e quem está te esperando não quer te ouvir falar... Me desculpa, mas acabou.
O que difere um amor de um amigo é o desejo. E não só pelo corpo. É o desejo demasiado pela alma. Desejar é querer ouvir cada vírgula e precisar fazer parte de cada momento. Ser desejado é chegar em casa e ter alguém que pergunte como foi o dia, e realmente queira ouvir a resposta. Não importa que não tenha novidades - quem te deseja quer te ouvir. Não há rotina que faça você deixar de ser a pessoa mais interessante do mundo. Mesmo estressado, é lindo. Mesmo exausto, é sexy. 

O sexo difere sim, também, um amor de um amigo. É tão importante quanto dizer que ama. Mas também é só a ponta do iceberg. Quando não alimentado por todas as outras áreas, o sexo se torna um estorvo.
É preciso querer ouvir cada reclamação para conquistar todas as curvas. É necessário ligar no meio do expediente e perguntar se é preciso comprar pão. É obrigatório elogiar. Elogie muito. Somos diariamente massacrados pela concorrência e chegamos em casa querendo ouvir como somos bons no que fazemos ou que somos lindos de qualquer jeito. Tirar a roupa pra alguém que não te admira é como assumir a linha de frente em uma guerra - é estar exposto e prestes a ser detonado.

Qual a explicação que todo casal dá para o fim do relacionamento? A rotina matou o amor. A paixão acabou com o tempo. O sexo não era a mesma coisa. As mesmas desculpas de sempre. 
A rotina só dificulta a conversa. O que mata o amor é a desistência. É deixar tudo como está porque é mais confortável do que mexer no que está errado. É ignorar o que está faltando porque é difícil admitir que, se está faltando, a culpa é nossa. 
Paixão não tem prazo de validade. Conserve e alimente todos os dias e o resultado será um relacionamento não perecível. 
Se o sexo não estiver a mesma coisa, ótimo. Faça diferente. Comece desejando a pessoa que está nua na sua frente. Deseje suas histórias, seus trejeitos, sua vida. Se importe com essa pessoa que despiu a alma pra você. E então deseje o físico.
Por isso elogie. Ouça. Se interesse. Não há terapia que salve um relacionamento porque não há amor que resista à falta de interesse. Ser interessante é o afrodisíaco mais eficaz. 

Por que te deixo ir embora

Toma teu banho, pega a toalha, se olha no espelho. Sai do banheiro e se depara comigo na cama te esperando quase nua, entregue, tranquila. Deita ao meu lado e desliza os dedos pelas minhas costas. Percebe minha respiração ofegante, meus pelos arrepiados, meu corpo te pedindo. Me ouve dizer que sou louca por ti e ri, aliviado, lembrando das vezes que disse que jamais seria tua. Fala alguma coisa, qualquer uma, e me flagra rindo e voltando a um nervosismo mascarado de seriedade. Me encara enquanto tiro o que sobrou da minha roupa e finjo que não sou insegura. Me encaixa em ti e sente meu corpo reagindo ao teu. Diz que me ama e ouve que te amo também. Observa, só pra me contar depois, o meu impulso de morder as mãos na tentativa frustrada de me conter. Marca meu corpo pra fazer dele mais teu do que já é. Dança nesse ritmo só nosso até acabar a música. E façamos a música tocar de novo. E mais uma vez. Troca teu cálice comigo e bebe o que é meu enquanto eu me inundo no que é teu. Me acompanha até que estejamos cansados demais pra continuar, satisfeitos pra achar pouco, e insaciados por causa dessa saudade sem fim.
Despejo meu corpo no teu. Atônitos, sempre surpresos, de riso fácil.
Me namora um pouco mais, ignora o horário, passeia tua mão pela minha nudez. Minha nudez que é tua, meu corpo que é teu, porque já não me tenho mais.

Encara os fatos, o relógio, veste tua roupa, volta pra tua casa.
Toma teu banho, pega a toalha, se olha no espelho. Sente meu cheiro misturado no teu, minhas mãos passeando pela tua nudez, meu beijo na tua boca. Só pra te mostrar que um banho não apaga minhas marcas e pra me mostrar que a distância não dissolve o que existe em nós. Só pra ter certeza de que não esqueces do meu sorriso, e que mesmo longe consegues ouvir minha voz. É pra saber que imaginas meus olhos te olhando, e que quase consegues sentir meus pés gelados nas tuas pernas. Eu me derramo em ti pra ir embora sabendo que me sentes tanto quanto eu te sinto. Eu te deixo ir embora porque me fiz tão tua e por isso não demoras a voltar.

Me perdoa, mas vem

Eu saio da minha vida pra ir pra tua. E se saíres da tua pra vir pra minha, faremos uma vida só. 
Porque com você tudo é maior. Por você tudo é melhor. Com você eu creio no incrível, eu desafio o impossível pra te ter aqui comigo. Eu faço o inaceitável pra não te perder. Eu desafio o destino, a distância dos anos, o estereótipo da idade.
Eu quero deitar tua cabeça nas minhas coxas e te dizer descansa, eu tô aqui.  E repousar minha mão sobre teu peito, sentir teu coração batendo e pensar que é por mim. E acreditar, mesmo sabendo que corações batem por impulso e não por estímulo. Quero ouvir tuas histórias, olhar nos teus olhos. Quero me ver como me enxergas. Mergulhar em quem és. Eu quero desligar o celular e tirar as pilhas do relógio de parede só pra não te ver indo embora. Quero uma caverna no meio da vida pra não ter que te deixar. Eu quero ser tua e te quero meu. Eu te olho e quase te desvendo, quase te resolvo, quase te roubo pra mim. 
Vem. Faz tuas malas e me encontra. Ou vem só com a roupa do corpo, e a gente constrói uma vida do zero.
Porque se antes era difícil te aceitar, hoje só não dá pra ficar sem você. Se o problema era o desconfiar dos outros, hoje a agonia é de não poder contar pro mundo. Foi difícil sair da minha vida e é ainda pior te ver voltando todos os dias pra tua, e quase ficar sem teu beijo, teu corpo, tua alma.
Me desculpa por chegar assim, de um dia pro outro, e querer mudar tua vida, de uma hora pra outra.
Desculpa se quero morar no teu corpo como se teu corpo fosse minha casa. Me perdoa se quero te cuidar, se preciso te beijar como se fosse meu último ato em vida.
Me perdoa por deitar no teu ombro como se você pudesse ser meu. Eu finjo que és e acredito em mim.
Me desculpa por te olhar louca, pidona, aflita. E por te amar sempre e um pouco mais.

Apesar de você

"Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia"
Apesar de Você - Chico Buarque


Apesar de você meu despertador tocou. Seis e cinquenta da manhã em ponto. Apesar de você eu demorei pra acreditar que já estava na hora de acordar, mas me levantei. Apesar de você, o chuveiro demorou um pouco pra esquentar, mas esquentou, e eu tomei banho. E peguei a primeira roupa que vi pela frente porque, apesar de você, eu não ligo muito pra moda. Preparei meu café da manhã, e era só café mesmo. Preto, forte e quase sem açúcar. E esse café me atacou a gastrite, porque apesar de você, café puro em jejum me faz mal. Procurei minha chave de casa mas não encontrei, porque assim como meu despertador toca às seis e cinquenta da manhã em ponto, eu sempre perco as chaves. Isso sempre me atrasa pelo menos quinze minutos, mas não coloco o despertador pra tocar mais cedo, nem deixo as chaves sempre no mesmo lugar. Porque apesar de você, sou teimosa. Encontrei as chaves debaixo de um moletom que estava jogado no chão e saí pra trabalhar. E consegui chegar atrasada na empresa, mesmo morando há cinco minutos dali.
Fiz meu horário de almoço, chequei a previsão do tempo, li o jornal. Acabou o expediente, botei o pé pra fora e começou a chover. Me molhei inteira, porque apesar de você eu não olho a previsão do tempo antes de sair de casa, e sim quando já estou fora dela. 

Conheci pessoas, comecei a malhar, cortei o cabelo, perdi contato com outras pessoas, me alimentei melhor. Parei de tomar café em jejum. Pedi perdão pra algumas pessoas que me faziam falta, fiz aniversários, fui a aniversários, emagreci. Li mais, escrevi pouco, vi mais filmes do que esperava e menos do que gostaria. E tem gente que ainda me faz falta mas não tem porque pedir perdão, você sabe, às vezes as pessoas se desconectam sem mais nem menos. Mas isso não quer dizer que você não sinta falta, então eu sinto falta dessas pessoas. Voltei a me alimentar mal, mas não tanto. Ganhei uns quilos, mas não muitos. Mas perco as chaves todos os dias, e me atraso quinze minutos, porque certos hábitos a gente não quer perder.

Apesar de você amanhã há de ser outro dia. Como foram todos esses dias que passaram sem que você estivesse aqui. E apesar de parecidos, esses dias foram todos diferentes. A pessoa que te fala hoje é a mesma que ainda perde as chaves de casa, mas não é a mesma louca por você. Porque apesar de você, é você. 

Você que não quis nada com nada, mas queria tudo ao mesmo tempo. Você que morou fora, engordou um pouco, passou por uns traumas, criou responsabilidade. Mas ainda é você. Crítico, acuado, pretensioso. 
Apesar de sermos e não sermos mais as mesmas pessoas, você voltou. 
Você voltou, mas apesar de ter voltado, não temos como continuar de onde paramos.
Porque apesar de você, o sol nasceu todos os dias e os dias me trouxeram pra outro lugar. 
Um lugar longe de você.

O que você me fez

Você fez com que eu me apaixonasse pelas coisas que eu sempre quis me apaixonar e não conseguia. Me fez amar a pessoa mais importante no mundo pra mim: eu. Me levou a prestar atenção em cada curva minha, cada mancha e toda imperfeição, e ainda assim me achar a pessoa mais interessante e bonita desse mundo. 

Vou ser petulante e dizer que se você morresse agora, morreria feliz. Você poderia morrer em paz porque conseguiu roubar um coração sem parecer roubo. Foi como se estivesse tomando de volta aquilo que sempre foi seu por direito. Vinte anos atrasado, e mesmo assim chegou na hora certa. E além de me roubar de volta, me fez finalmente acreditar que não existe ninguém como eu. Ainda não sei se isso é bom, mas sei como é difícil se sentir único. Sei quantas pessoas já viveram e morreram nesse mundo sem se sentir assim. E quantas pessoas passaram pela vida sem fazer alguém se sentir dessa forma. E eu só me senti assim com você. Você conseguiu, me abduziu do meu mundo, da minha vida e dos meus problemas. É como se eu pudesse deixar tudo pra trás e carregar comigo só o que há de realmente bom na minha vida. Com você eu não tenho atribulações, dívidas, compromissos. Com você eu só tenho minhas lembranças e todo o meu amor. 

É fácil amar numa situação tida como certa, você sabe. Amor sem obstáculos, sem suspense, sem frio na barriga. É fácil amar sem sentir nada. Aí você chegou e me ensinou que amar é acima. Acima dos problemas, dos empecilhos, acima da vida. E que amor tem frio na barriga sim. E muita paixão também. Esse amor é quem se esquece de te lembrar o que é certo e errado. É quem te abduz de você mesmo.

Eu passei por cima de cada preconceito como se quebrasse cada osso do meu corpo. Um por um. 
Perder a vergonha foi como tirar a roupa, peça a peça, botão por botão, antes mesmo de ficar nua pra você. Eu precisei me refazer pra te conhecer e entrar na tua vida. Eu me reconstruí com as minhas melhores partes. Porque você merece. Você merece ter o melhor de mim.
Eu não acreditava que fosse possível conhecer uma alma antes do beijo, e amar antes de invadir o corpo. 
Aí você chegou e me fez acreditar em tudo de novo. Eu me recomecei quando você chegou. 

A verdade sobre aniversários

Esses dias foi meu aniversário. Quando era criança, eu era completamente obcecada por aniversários. Eu queria uma semana de total permissão para fazer tudo que desejasse e três dias de comemoração. Um com a família, um na escola e um com os melhores amigos. Mas os anos passam e, quando vi, já não podia mais faltar aula no grande dia, porque já havia me formado, e no trabalho ninguém dá a mínima se você nasceu naquele mesmo dia, anos atrás. Crescer, então, é meio triste. Eu já não preciso de permissão para fazer o que desejo (no máximo recebo uns conselhos e algumas broncas), e quanto menos eu precisar falar ao telefone para agradecer às felicitações, melhor. Mas esse ano foi um pouquinho diferente. Eu me deparei com os melhores amigos da vida toda nem se lembrando da minha data. Outros não se esforçaram nem pra disfarçar que, eles lembravam sim, mas simplesmente não estavam a fim de me parabenizar pelos meus anos de vida. O bicho pegou no quesito depressão de aniversário.
Existe toda uma ilusão ao redor de aniversários. Você completa tantos anos na terra e na vida das pessoas que te cercam, e por mais que você passe o ano inteiro pensando que nem é aquilo tudo, e agradecendo a Deus e ao mundo por te aturarem, naquele dia você espera ouvir “parabéns”.

Parabéns por ter engolido o choro quando o natural seria cair pra nunca mais levantar. Parabéns por ter levado o casaco que sua mãe falou pra levar, porque ia esfriar mais tarde. Parabéns por ter sido educado quando te humilharam. Sério, amigo, meus parabéns por ter deixado de sair sexta à noite pra alegrar minha fossa. Você merece esses anos vividos só por ter me amado quando eu te deixei de lado. Parabéns por ter tido coragem de ser quem você é, mesmo que ninguém entenda ou aceite. Parabéns por ter trocado de emprego quando deu na telha, e até por ter faltado ao meu aniversário sem desculpa alguma, só com um “não tava a fim”.

Não é ironia. Esse ano, com o meu aniversário, eu aprendi mais uma coisa difícil dessa vida. Noventa e nove por cento das pessoas que vão passar por você, só vão se lembrar da sua existência enquanto você tiver algo a oferecer. Enquanto você se doar até não poder mais. Enquanto você sair com elas incessantemente, porque se ficar em casa um dia sequer você já não vai ser tão parceiro assim. Você vai ser insubstituível enquanto for legal, divertido e descolado. Mas se você entrar em depressão e fazer do psiquiatra seu novo amigo, já não é tão admirável assim. Porque além de se doar, você tem que estar bem sempre. Os problemas do trabalho não podem te afetar. Os de família, então, nem se fala. Você precisa engolir o luto pela morte de um parente, porque se você não for forte, consequentemente você é fraco. E com esses anos de vida que completei esses dias, eu aprendi que não é bem assim.

Estar fraco não quer dizer que você não seja forte. E ter coragem de demonstrar fraqueza é nobre. Ser sincero e assumir que não vai sair porque não está a fim é mais legal do que sair por sair, sem querer estar lá. Ao mesmo tempo em que vi muitas pessoas se esquecendo de mim por eu não me esforçar para ser quem eu não sou, eu identifiquei amigos que me parabenizam todos os dias com suas amizades e vontade de estar comigo seja onde for.
Já fui fraca, já tratei mal quem não merecia, ignorei bons conselhos, não fui ao aniversário de amigos por não estar a fim, fui sincera. Mas também nunca tive vergonha de pedir perdão, nunca neguei um abraço nem desejei mal a quem quer que fosse. Já engoli luto, caí achando que não teria forças pra levantar, mas me levantei. Uma, duas, dez vezes. E assim segue porque, se Deus quiser, mais aniversários vêm por aí.


Sei que assim como eu, você se assustou ao ver que cresceu. E que às vezes é difícil se dar conta de que tem pouquíssimos amigos de verdade. Sei também que pode ser triste quando alguém não te deseja feliz aniversário no seu grande dia, mas queria dizer que você está de parabéns. Todos os dias. 

O que é bonito

Eu te amo mesmo com meu estômago querendo sair correndo agora.

A gente tinha acabado de jantar. Eu, como sempre, exagerei e saí com dor no estômago de tanto comer. Depois a gente ficou de bobeira na cama dele, olhando o teto e conversando sobre amor. Eu não sabia que era tão difícil falar de amor depois que se ama de verdade. Antes a gente fala de como deve ser o amor, como achamos que é ser amado, mas são apenas teorias. Quando você ama de verdade usa coisas como “eu te amo até com meu estômago dilatado de tanta comida” porque o romântico se transforma.  Você percebe que os filmes exageram, porque um beijo na ponta do dedo é muito melhor do que um beijo de reconciliação na chuva.

Bonito mesmo é fazer as pazes. Bonito e difícil. Você tá lá, cheio de razão, mas sabe que aceitar dormir brigado é como aceitar perder uma guerra. Sim, porque quando você ama, ganhar a batalha é fazer as pazes, não ter razão. Aliás, o que é razão entre duas pessoas que se amam? Fábula. Aqui ganha quem pede desculpa primeiro.

Mais bonito do que jantar à luz de velas é ver quem vai lavar a louça depois do almoço. Lavar a louça é chato, mas fazer parte do cotidiano de alguém faz valer a pena.

Brigar é chato e nunca vale o esforço. Quantas discussões você inicia por charme? Nem toda briga termina com ele batendo na porta molhado da chuva com um buquê de flores na mão. Aliás, só vi tal façanha na ficção. O tiro pode sair pela culatra, ela desligar na sua cara e não te atender mais até o dia seguinte. Aí seu charme faz você dormir brigado com quem você ama.  Então bonito, às vezes, é não ter charme.

Você pode achar que estou dizendo que devemos ignorar toda e qualquer decepção, todo atraso e qualquer grosseria. Não, muito pelo contrário. 
Eu quero dizer que o maior romance de todos é de quem sabe resolver o que quase não tem mais jeito, que conserta o que está quebrado e renova o que está quase podre. Romântico é saber conversar quando a vontade de gritar é maior. É buscar entender o que houve de errado, mesmo que não seja errado pra você.  


Amor é muito maior do que mostram por aí. Ainda bem. 

Quase raiva

Por vezes nos desentendemos. Por vezes você se aninha a mim, com ar de resignação, e diz que me ama. Quase com raiva, percebo que não consigo te detestar por muito tempo. Quase com raiva, eu respondo que também te amo. E como isso conseguia ser ruim às vezes. E é incrível como o amor consegue fazer tudo isso, essa raiva virar pó, qualquer briga virar amor e todo problema virar solução. No meio de uma conflito, eu paro pra te olhar e te vejo nu. Nu de alma. Vejo o meu melhor amigo. O abraço que eu chamo de lar. A minha felicidade no domingo mais chato de todos os domingos chatos. Eu vejo como a minha vida mudou desde que você chegou, e que nada nesse mundo faria você ir embora. Briga nenhuma faria você ir embora. Porque você veio pra ficar. Então desculpa, eu sou chata sim, mais do que sou legal. E sim, eu sei que é insuportável me aturar na TPM duas semanas por mês. E também é irritante como você, às vezes, não presta atenção no que eu falo e perde um tempo danado batendo na mesma tecla de tão perfeccionista. Mas você é lindo. Lindo além do sorriso, além dos olhos que me olham tão lá dentro, lindo além do corpo. Você é lindo na alma, e foi exatamente aí que eu caí. Foi no conhecer a tua alma que eu me apaixonei.


Sabe que quando a gente briga, eu fico te olhando, quase com raiva, e pensando que te odiar mesmo que só por um segundo é tempo demais a perder. Aí eu te abraço forte como se sugasse a tua presença. Sempre resolve.

A vida em um café

Esses dias tomei um café. Coisa que faço sempre, mas desta vez foi diferente. Acabara de chegar do trabalho e, como de costume, sentia-me completamente esgotada. Ao dar o primeiro gole, fiquei encarando aquele café e toda a sua fumaça. Me descobri imersa nas obrigações do dia a dia, porque de fato é preciso mergulhar até o mais profundo em tudo que fazemos. Acontece que, de uma hora pra outra, se a gente não vigia, mergulhamos apenas naquilo que é obrigatório e esquecemos de afundar naquilo que é prazeroso. E a nossa vida, assim como café, esfria se a gente não aproveitar enquanto estiver quente. Enquanto a gente pode sair do trabalho e pegar a estrada, a praia, a balada. Deixar o cansaço pra outra década. Não que o cansaço possa ser ignorado. Ele existe, mas pode se tornar grande demais se comparado com o nosso tempo de vida. A vida é grande, porém curta. Então curta. Dá sim de sair do trabalho, tomar um banho e sair com os amigos. É possível sobreviver dormindo menos de oito horas por dia. Porque assim como café, sem açúcar a vida amarga. Então se a cafeína perder o efeito, apele para o tesão. Ele é essencial nas horas em que tudo perde a graça e o sentido. Porque senão, quando a gente for tomar um café, vai acabar percebendo que está sempre bem disposto para trabalhar e nunca pronto pra todo o resto. E esse resto é muito maior do que todas as obrigações que não temos como procrastinar. Entre o ciclo vital de nascer, crescer, trabalhar e morrer, existem prazeres que fazem tudo valer a pena. Abraço de mãe, amigos eternos, namoro no sofá sábado à noite... Existe uma vida inteira, ou até mais, se a gente souber viver.

Estranho

Fiquei um bom tempo tamborilando os dedos em cima da minha mesinha. Encarando essa folha, experimentei os mais contraditórios sentimentos. Fui sua amiga, e por me encontrar com vontade de te escrever, percebo que ainda sou. E amigos sentem falta de boas memórias e você me rendeu várias. Mas vi que você está feliz, como merecido, e isso faz com que eu me sinta a mais egoísta dos mortais. Agora me dou conta que sinto falta das boas memórias que meu grande amigo me rendeu, mas que sou egoísta por querer dar um alô. Ao mesmo tempo, vejo a data de hoje e um tempo razoável já se passou desde que rompemos todo o tipo de comunicação. O que é um forte indício de que você não sinta nenhum rancor ou tristeza pelo desfecho da nossa história e consequentemente me ache demasiado ridícula em ainda dar importância a isso. Pra você ver que eu nunca superei o fato de, em algum ponto das nossas vidas, eu ter te deixado triste. E eu queria que você fosse capaz de ler este meu sinal de vida e sentir que: cacete, muita coisa mudou desde então. E desde então eu estou feliz, acordo, tomo banho todos os dias, bebo com e sem os amigos, me apaixonei por alguém que gosta de mim também. Pronto, eu nem preciso saber, mas se você lesse isso e se sentisse exatamente assim, inconscientemente valeria a pena. E talvez eu pudesse até me perdoar “pelo saco de ausências que eu fui e que você carregou por tanto tempo.” Você é o amigo que mais me doeu até hoje porque a gente nunca sabe quando alguém, sem querer, vai ultrapassar a fronteira entre a amizade e a paixão. E porque amizades se perdem nesse ínterim, enquanto finalmente entendemos que “não era pra ser” é bem mais simples do que imaginamos. Queria poder sentar naquele mesmo bar – aquele em que você me escreveu o bilhete que dizia “Me apaixonei por você, mas sei que posso acabar com isso agora, e acabo de acabar.” – e conversar com você como se toda essa parte não existisse. Sei que cruzei contigo em outros bares que não esse, e teu olhar cruzou com o meu como se tivesses apagado da memória qualquer lembrança vinculada a minha pessoa. O que faz de mim uma completa estranha. Uma completa estranha diante do meu grande amigo que me rendeu boas memórias. Então, não me interessa saber se esse olhar vago de desconhecimento é sinal de uma mágoa que ainda palpita ou se é um superar a ponto de não valer a pena mostrar quaisquer sinais de reconhecimento. Se é que um dia essa carta vai chegar até ti, espero que leias e sintas que, finalmente, tempo suficiente passou. E que você está mais feliz do que pensava que merecia. Mesmo que a gente se cruze em outros bares e você finja não me ver.

Quando não tem você

Quando eu chego em casa sozinha é que eu percebo. Tomar banho, catar alguma coisa na geladeira pra comer, deitar e ligar a TV. É quando eu faço essas coisas corriqueiras que eu percebo que o mais banal se torna o melhor na tua companhia. Me perdoa pelo tamanho da cafonice, mas tomar banho é apenas uma necessidade fisiológica sem você pra me cheirar depois. E dizer que tá bonito assim, de cabelo molhado e sem maquiagem, só enrolada no teu lençol.
E apesar de irritante, comer sem ouvir você dizendo que "desse jeito" eu nunca vou emagrecer, é sem graça. Deitar não tem o mesmo aconchego se não é no teu peito, ouvindo o ar entrando em teus pulmões.

Mais do que a pessoa que me mostrou coisas novas, você é também quem me fez olhar de novo para as coisas de todo dia. O valor de ter minhas pernas enroscadas nas tuas enquanto fazemos nada. A dimensão de me sentir exposta com meio segundo do teu olhar. A plenitude que alcanço quando seguro tua mão. Você.

Olha, eu nem sei a gravidade do meu caso, mas eu peço para que a semana passe correndo pra eu ir voando pro teu chuveiro e pra tua geladeira e pra tua cama. Quando eu chego em casa sozinha é que eu percebo que minha alegria fica tristinha quando não tem você me observando enquanto eu falo sem parar sobre as coisas mais insignificantes do mundo. E às vezes eu me encontro no caos do centro da cidade e mentalizo nós dois, no silêncio do teu quarto, entrelaçados, enquanto você sussurra que vai ficar tudo bem.

Ah, porque até as coisas boas não são tão boas sem você aqui. E tudo que é ruim acaba virando tempestade em copo d'água, porque se tem você, tem paz. Você é o conforto do fim do dia e o primeiro sorriso da manhã. E torna tudo mais bonito, sempre.

Eu queria que você me ligasse

Às vezes eu queria que você me ligasse. E você liga, eu sei que sim. Mas eu queria que você me ligasse no exato momento em que eu precisasse ouvir tua voz. Como que por telepatia - você sente a minha necessidade, para tudo que está fazendo e me liga.

Não é sempre que isso acontece, mas quando acontece é tão urgente, sabe? Eu fico me roendo por dentro porque ao invés de simplesmente te ligar e ouvir a tua maldita voz, eu fico cultivando úlceras porque não quero ser chata. Você sabe desse meu medo de ser chata, não sabe? E você vive dizendo não tem problema, não é chato, pode ligar quando quiser. E se por acaso eu quiser, um dia, te ligar o dia todo? Antes e depois das refeições, já pensou? Eu tenho medo de mim e da minha possível chatice. E é por isso que eu me ponho de castigo e não te ligo de jeito nenhum.

Porque quando você me achar chata já vai ser tarde demais e eu não quero ser chata e nem que seja tarde demais. Nunca. Pra nós dois eu quero apenas o tempo exato. Nem repentino nem tardio. Somente a hora certa pra nós dois. Então eu prefiro desse jeito, ficando na minha, tentando fazer com que tu sintas saudade e a minha necessidade pare tudo que está fazendo e me ligue. Eu fico com o celular na mão pensando em mil desculpas pra te ligar mas não ligo, porque eu sou covarde demais pra assumir minha vontade de ouvir a tua bendita voz.
Mas assim, se você por acaso um dia decidir que quer me ligar o dia inteiro, pode viu? Não tem problema, não é chato, pode ligar quando quiser.